terça-feira, 25 de novembro de 2008

A vitória de Obama

O novo presidente dos EUA vem despertando pulsações de esperança nos cidadãos estadunidenses e em diversos cantos do mundo. Segundo o artigo de Marco Aurélio Nogueira, a vitória de Barack Obama, que une o perfil raconal-legal ao do líder carismático, não é o suficiente mas já é muita coisa.

O efeito Obama

A eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos já foi submetida a todo tipo de avaliação. Porém, como todo fato histórico, continua a desafiar os analistas.

Foi sem dúvida o principal acontecimento de um ano sacudido mais pela crise financeira internacional do que por fatos políticos particularmente expressivos. Terá força para repor a política no centro da vida e das atenções, ao menos nos Estados Unidos? Muito se falou da dimensão simbólica da vitória de Obama. Um negro, que veio de baixo, um político formado por Harvard, estranho às aristocracias políticas norte-americanas, não poderia mesmo deixar de produzir impacto, despertar emoções, dar esperança a milhões de pessoas que se sentem derrotadas e humilhadas, que ainda se lembram do apartheid racial que devassou a convivência e a dignidade humana dentro e fora da nação tida como “pátria da Liberdade”. Mas Obama também incendiou os jovens e conseguiu assimilar o eleitorado feminino que torcia por Hillary Clinton. Estabeleceu empatia com todos os setores da sociedade americana. Foi emocionante ver as multidões que o saudaram em Chicago e comemoraram sua vitória em várias partes do mundo. Num momento de refluxo no envolvimento com a política, a centelha de mobilização que acompanhou Obama merece no mínimo um acompanhamento cuidadoso.

Dado o peso dos Estados Unidos, tudo o que ali acontece pode repercutir no modo como se vive no mundo. Mas não em termos imediatamente econômicos, pois parece difícil que se consiga, pelo efeito mágico de um gesto, estancar de imediato a crise financeira, modificar a predisposição consumista das massas e arrefecer o afã desenvolvimentista que grassa forte neste início de século. Consumismo desenfreado e crescimento econômico a qualquer preço são duas das principais pragas da modernidade, e a elas devemos imputar boa parte das mazelas com que convivemos. Trocar consumo e desenvolvimento por investimentos sociais, por democracia, igualdade, respeito ao meio ambiente e desaquecimento, não é seguramente operação simples. Requererá décadas de empenho político, criatividade e reeducação.

Obama não tem como nos fornecer isso, mas pode agir como catalisador. Pode, por exemplo, repor na cena política uma agenda progressista, voltada mais para a população do que para a economia, ainda que sem abandonar a convicção de que é preciso ajudar os mercados a sair da lambança em que se meteram. Voltar-se para a população significa fazer o governo funcionar para promover as pessoas, provê-las de serviços e suportes que as façam crescer e viver com dignidade. Obama pode ajudar a que se passe a ver o bom governo como aquele que colabora para que se tenha boa vida, não tanto boa economia. Pode ser uma diferença sutil, mas não deixa de ser decisiva. Dar-se-ia o mesmo na frente administrativa. Uma guinada progressista de Obama jogaria por terra o palavrório insosso do “choque de gestão” e do Estado mínimo.

Muitos manifestaram preocupação com o protecionismo do Partido Democrata e do próprio Obama, que desde a campanha sempre se manifestou favorável aos interesses de seu país. Os que não gostaram disso pareciam querer que o novo presidente governasse para o mundo e para os países mais pobres. O protecionismo democrata é tradicional. Sempre existiu e sempre existirá, especialmente em momentos de crise aguda, como o atual.

Uma eventual agenda progressista de Obama não abandonará o protecionismo, e não fará isso por vários motivos. Mas poderá contribuir para que se criem novos canais de negociação, novos relacionamentos comerciais e novas modalidades de cooperação e ajuda internacional. Se for assim, será um passo de gigante.

Não houve quem não lembrasse que uma coisa é o discurso de campanha, outra coisa é a prática efetiva do governo. Trata-se de uma lembrança oportuna, ainda que óbvia e elementar. Todo governante eleito vive tal situação, mesmo aqueles que prometem pouco e se apresentam como técnicos ou “gerenciais”. Campanha e governo implicam lógicas distintas, condutas e discursos específicos. O importante é compreender como o candidato se prolonga no governante. Política e governo são sempre um ator e certas circunstâncias. Faz-se o que se pode, não o que se deseja fazer. Mas sempre dá para ligar o desejável e o possível, graduá-los e equilibrá-los, de modo a que a prática dura e fria do governo contenha uma dose de fantasia e facilite às pessoas a continuidade de uma esperança. Obama enfrentará dificuldades enormes para transformar em fatos muitos de seus compromissos de campanha. Mas poderá fazer com que seus recuos e fracassos se convertam em fatores de mobilização para novas tentativas futuras.

Obama tem tais condições porque representa um sopro de renovação e vem embalado pelo entusiasmo das multidões. Sua legitimidade mistura respeito racional-legal e adesão ao carisma do líder. Representa o negro pobre e o branco liberal, o branco atingido pela crise e o negro progressista, a classe média que se empobreceu e as elites democráticas, os jovens, os mais velhos e as mulheres de todas as etnias.

Torcer por seu sucesso, e admitir que ele possa acontecer, não autoriza ninguém a se pôr diante dele com a ingênua expectativa de que tudo agora será diferente. Obama não trará o céu à terra até mesmo porque não se comprometeu com isso. Não é anticapitalista nem reformista convicto, menos ainda um socialista moderado. É somente um político jovem, talentoso, pragmático e determinado, em cujas veias parece correr o sangue secular do que há de melhor na sociedade americana. Mais que um sonho, ele expressa o fim de um pesadelo, a era Bush. Pode não ser suficiente, mas é sem dúvida muita coisa. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 22 de novembro de 2008, p. A2] 

sábado, 22 de novembro de 2008

Crítica à extrema esquerda

Nesse artigo Emir Sader critica com veemência a extrema esquerda brasileira e afirma: "[...] Confirmação desse isolamento e de perda de sensibilidade e contato com a realidade é que não se vê nenhum tipo de balanço autocrítico, sequer constatação de derrota da parte da extrema esquerda. Se afirma que se fizeram boas campanhas, não importando os resultados, como se se tratassem de pastores religiosos que pregam no deserto, com a consciência de que representam uma palavra divina, que ainda não foi compreendida pelo povo. (Marx dizia que a pequena burguesia sofre derrotas acachapantes, mas não se autocritica, não coloca em questão sua orientação, acredita apenas que o povo ainda não está maduro para sua posições, definidas essencialmente como corretas, porque corresponderiam a textos sagrados da teoria.)"


21/11/2008

A crise da extrema esquerda

Emir Sader

Os resultados das eleições municipais vieram corroborar o que o cenário político nacional já permitia ver: o esgotamento do impulso da extrema esquerda, que tinha sido relançada no começo do governo Lula. A votação em torno de 1% de dois dos seus três parlamentares, candidatos a prefeito em São Paulo e no Rio de Janeiro, com votações significativamente menores do que as que tiveram como candidatos a deputados, sem falar na diferença colossal em relação à candidata à presidência, apenas dois anos antes – são a expressão eleitoral, quantitativa, que se estendeu por praticamente todo o país, do esgotamento prematuro de um projeto que se iniciou com uma lógica clara, mas esbarrou cedo em limitações que o levam a um beco difícil, se não houver mudança de rota.

A Carta aos Brasileiros, anunciando que o novo governo não iria romper nenhum compromisso – nesse caso, com o capital financeiro, para bloquear o ataque especulativo, medido pelo “risco Lula” -, a nomeação de Meirelles para o Banco Central e a reforma da previdência como primeira do governo – desenharam o quadro de decepção com o governo Lula, que levaria à saída do PT de setores de esquerda. A orientação assumida pelo governo inicialmente, em que a presença hegemônica de Palocci fazia primar os elementos de continuidade com o governo FHC sobre os de mudança – estes recluídos basicamente na política externa diferenciada e em setores localizados – e a reiteração de um governo estritamente neoliberal davam uma imagem de um governo que era considerado pelos que abandonavam o PT, como irreversivelmente perdido para a esquerda.

O dilema para a esquerda era seguir a luta por um governo anti-neoliberal dentro do PT e do governo ou sair para reagrupar forças e projetar a formação de uma nova agrupação. Naquele momento se cogitou a constituição de um núcleo socialista, dos que permaneciam e dos que saíam do PT, para discutir amplamente os rumos a tomar. Não apenas cabia uma força à esquerda do PT, como se poderia prever que ela seria engrossada por setores amplos, caso a orientação inicial do governo se mantivesse.

Dois fatores vieram a alterar esse quadro. O primeiro, a precipitação na fundação de um novo partido – o Psol -, com o primeiro grupo que saiu do PT – em particular a tendência morenista – passando a controlar as estruturas da nova agremiação. Isto não apenas estreitou organizativamente o novo partido, como o levou a posições de ultra-esquerda, responsáveis pelo seu isolamento e sectarização. A candidatura presidencial nas eleições de 2006 agregou um outro elemento ao sectarismo, que já levaria a uma posição de eqüidistância em relação ao governo Lula. O raciocínio predominante foi o de que o governo era o melhor administrador do neoliberalismo, porque além de mantê-lo e consolidá-lo, o fazia dividindo e confundindo a esquerda, neutralizando a amplos setores do movimento de massas. Portanto deveria ser derrotado e destruído, para que uma verdadeira esquerda pudesse surgir. O governo Lula e o PT passaram a ser os inimigos fundamentais da nova agrupação.

Esse elemento favoreceu a aliança – já desenhada no Parlamento, mas consolidada na campanha eleitoral – com a direita – tanto com o bloco tucano-pefelista, como com a mídia oligárquica -, na oposição ao governo e à reeleição de Lula. A projeção midiática benevolente da imagem da candidata do Psol lhe permitia ter mais votos do que os do seu partido, mas comprometia a imagem do partido com uma campanha despolitizada e oportunista, em que a caracterização do governo Lula não se diferenciava daquela feita na campanha do “mensalão”. Como se poderia esperar, apesar de algumas resistências, a posição no segundo turno foi a do voto nulo, isto é, daria igual para o novo partido a vitória do neoliberal duro e puro Alckmin ou de Lula. (Se tornava linha nacional oficial o que já se havia dado nas primeiras eleições em que o Psol participou, as municipais, em que, por exemplo, em Porto Alegre, diante de Raul Pont e Fogaça, no segundo turno, se afirmou que se tratava da nova direita contra a velha direita e se decidiu pelo voto nulo.)

Uma combinação entre sectarismo e oportunismo foi responsável pelo comprometimento da orientação política do novo partido, que o levou a perder a possibilidade de formação de um partido à esquerda do PT, que se aliasse a este nos pontos comuns e lutasse contra nos temas de divergência. O sectarismo levou a que sindicatos saíssem da CUT, sem conseguir se agrupar com outros, enfraquecendo a esquerda da CUT e se dispersando no isolamento. Levou a que os parlamentares do Psol votassem contra o governo em tudo – até mesmo na CPMF – e não apoiassem as políticas corretas do governo – como a política internacional, entre outras. Esta se dá porque o governo brasileiro tem estreita política de alianças com as principais lideranças de esquerda no continente – como as de Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia -, que apóiam o governo Lula, o que desloca completamente posições de ultra-esquerda – que se reproduzem de forma similar a dessa corrente no Brasil nesses países -, deixando de atuar numa dimensão fundamental para a esquerda – a integração continental.

Por outro, o governo Lula passou a outra etapa, com a saída de vários de seus ministros, principalmente Palocci, conseguindo retomar um ciclo expansivo da economia e desenvolvendo efetivas políticas de distribuição de renda, ao mesmo tempo que recolocava o tema do desenvolvimento como central – deslocando o da estabilidade, central para o governo FHC -, avançando na recomposição do aparelho do Estado, melhorando substancialmente o nível do emprego formal, diminuindo o desemprego, entre outros aspetos. 

A caracterização do governo Lula como expressão consolidada do neoliberalismo, um governo cada vez mais afundado no neoliberalismo – reedição de FHC, de Menem, de Carlos Andrés Perez, de Fujimori, de Sanchez de Losada – se chocava com a realidade. 

Economistas da extrema esquerda continuaram brigando com a realidade, anunciando catástrofes iminentes, capitulações de toda ordem, tentando resgatar sua equivocada previsão sobre os destinos irreversíveis do governo, tentando reduzir o governo Lula a uma simples continuação do governo FHC, reduzindo as políticas sociais a “assistencialismo”, mas foram sistematicamente desmentidos pela realidade, que levou ao isolamento total dos que pregam essas posições desencontradas com a realidade.

O isolamento dessas posições se refletiu no resultado eleitoral, em que todas as correntes de ultra-esquerda ficaram relegadas à intranscendência política, revelando como estão afastadas da realidade, do sentimento geral do povo, dos problemas que enfrenta o Brasil e a América Latina. As políticas sociais respondem em grande parte pelos 80% de apoio do governo,rejeitado por apenas 8%. Para a direita basta a afirmação do “asisistencialismo” do governo e da desqualificação do povo, que se deixaria corromper por “alguns centavos”, mas a esquerda não pode comprá-la, por reacionária e discriminatória contra os pobres.

Confirmação desse isolamento e de perda de sensibilidade e contato com a realidade é que não se vê nenhum tipo de balanço autocrítico, sequer constatação de derrota da parte da extrema esquerda. Se afirma que se fizeram boas campanhas, não importando os resultados, como se se tratassem de pastores religiosos que pregam no deserto, com a consciência de que representam uma palavra divina, que ainda não foi compreendida pelo povo. (Marx dizia que a pequena burguesia sofre derrotas acachapantes, mas não se autocrítica, não coloca em questão sua orientação, acredita apenas que o povo ainda não está maduro para sua posições, definidas essencialmente como corretas, porque corresponderiam a textos sagrados da teoria.)

Não fazer um balanço das derrotas, não se dar conta do isolamento em que se encontram, da aliança tácita com a direita e das transformações do governo Lula – junto com as da própria realidade econômica e social do país –, da constatação do caráter contraditório do governo Lula, que não deveria ser se inimigo fundamental revelariam a perda de sensibilidade política, o que poderia significar um caminho sem volta para a extrema esquerda. Seria uma pena, porque a esquerda brasileira precisa de uma força mais radical, que se alie ao PT nas coincidências e lute nas divergências, compondo um quadro mais amplo e representativo, combinando aliança a autonomia, que faria bem à esquerda e ao Brasil.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Falta de diálogo na América do Sul

A falta de diálogo não faz bem a nenhum relacionamento, ainda mais a relacionamentos entre países. É fato que o Brasil é visto como um país imperialista, explorador e auto-referenciado por muitos na América do Sul, tal como o EUA é visto por muitos no Brasil. Em parte, há razão para isso. Mas a falta de diálogo não auxilia os demais países, e dificulta muito um processo de integração na América do Sul.

Embaixador do Brasil no Equador é convocado para consultas

Governo de Rafael Correa pede o fim do pagamento ao financiamento concedido para obras da Odebrecht

Agência Estado

SÃO PAULO - O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que o governo brasileiro chamou o embaixador do Brasil no Equador para consultas depois do governo equatoriano entrar com pedido junto à Corte Internacional de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional para suspender o pagamento da dívida para financiamento da hidrelétrica São Francisco junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), construída no país pela empresa brasileira Norberto Odebrecht.  "O governo recebeu com muita preocupação a decisão do Equador de suspender o pagamento da dívida ao BNDES", afirmou Amorim durante breve declaração no final da Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, em São Paulo. Por isso "chamamos nosso embaixador no Equador para consultas, e todo mundo que conhece algo de diplomacia sabe o que isto significa", destacou.

 O presidente do Equador, Rafael Correa, disse na quinta-feira, durante a divulgação dos resultados de uma auditoria sobre a dívida do país, que o governo tomou providências legais contra uma dívida contraída junto ao BNDES, por meio da construtora Odebrecht. A declaração foi reforçada por Jorge Glas, presidente do Fundo de Solidariedade do Equador, órgão estatal vinculado ao setor de geração e transmissão de energia elétrica no país. Em entrevista ao jornal local El Universo, ele explicou que o governo apresentou um pedido de arbitragem na Câmara de Comércio Internacional, em Paris, solicitando a suspensão da cobrança do empréstimo devido a ilegalidades contratuais. Segundo Glas, a dívida é de US$ 286 milhões.

  "A decisão do governo equatoriano foi anunciada em evento público sem prévia consulta ou notificação ao governo brasileiro", afirmou nota distribuída à imprensa. O chanceler brasileiro acrescentou que o BNDES ainda vai se pronunciar sobre as alegações feitas pelo governo equatoriano relativas ao contrato de financiamento. "O governo brasileiro considera que a natureza e a forma de adoção das medidas tomadas pelo governo equatoriano não se coadunam com o espírito de diálogo, de amizade e de cooperação que caracteriza as relações entre Brasil e Equador", diz a nota.

 Segundo o governo do Equador, a responsabilidade da dívida com o BNDES é da Odebrecht e não de Quito. Procurado pela Agência Estado, o BNDES informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não irá se pronunciar sobre o assunto e que possíveis pronunciamentos sobre o tema só poderão ser considerados quando o BNDES for comunicado oficialmente sobre a instauração do processo. Correa já havia ameaçado não pagar o empréstimo em setembro, argumentando que o dinheiro, utilizado para financiar as obras da hidrelétrica de San Francisco, possuía "graves irregularidades". A usina foi construída pela Odebrecht e começou a operar em meados do ano passado, mas interrompeu as operações em junho por problemas na construção. Quito depois expulsou a Odebrecht do país.

 Caso Odebrecht

 Correa expulsou a empresa de seu país numa disputa a respeito de uma central hidrelétrica. Aliado do governo venezuelano, Correa assinou um decreto, em 23 de setembro, ordenando o embargo dos bens da Odebrecht, a ocupação militar das obras em andamento e a proibição de que funcionários da empreiteira deixassem o país.

 A central San Francisco, construída pelo consórcio Odebrecht-Alstom-Vatech, foi inaugurada em 2007 e, em junho deste ano, começou a apresentar problemas, sendo logo depois fechada. A hidrelétrica tinha capacidade de fornecer 12% da energia consumida no país. A Odebrecht tentou um acordo com o governo equatoriano, que foi rejeitado por Rafael Correa no começo do mês passado.

 A dívida do Equador com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a construção da hidrelétrica de San Francisco ultrapassa US$ 460 milhões. O valor inclui os juros cobrados sobre os US$ 242 milhões emprestados pelo banco para financiar as obras.

 'Dívida ilegal'

 A medida em relação ao banco estatal brasileiro foi anunciada junto com um relatório da Comissão de Auditoria da Dívida Externa, que afirma que uma parte da dívida externa do país é ilegal e que poderá não ser paga. A Comissão considera que a negociação prejudicou os interesses do país. Os auditores afirmaram que os organismos multilaterais promoveram um endividamento "desleal" e que o Fundo Monetário Internacional (FMI) teria "incentivado" esse endividamento.

 Ao final da apresentação do relatório na quinta, Correa disse que buscará não pagar a dívida e que pretende punir os responsáveis equatorianos encarregados da negociação. "Buscaremos não apenas castigar os culpados, mas também não pagar a dívida ilegal, ilegítima, corrupta", afirmou Correa.

 O presidente equatoriano disse ainda que os resultados da auditoria devem determinar a futura política financeira do país. Uma das suas primeiras decisões agora será definir se o país pagará a parcela dos juros da dívida externa que vence em 15 de dezembro.

 Se decidir não pagar a parcela de US$ 30,4 milhões o governo vai na prática decretar a moratória da dívida. Outra possibilidade seria propor uma renegociação com os credores.

 Se optar por não pagar a dívida, a ministra de Finanças María Elsa Viteri adiantou que seu país poderia recorrer a países amigos, como a Venezuela, para obter financiamento, diante de uma provável restrição de crédito das instituições financeiras internacionais.

Limitação dos países emergentes na crise

Interessante análise sobre a condição dos países emergentes na crise e sobre a trajetória de Brasil e Coréia desde as crises dos anos 1990.

Salvem os mercados emergentes
Dani Rodrik - Valor online
21/11/2008

(...) Vejamos o que aconteceu com a Coréia do Sul e o Brasil. Os dois países experimentaram crises cambiais no passado recente - a Coréia do Sul em 1997-1998 e o Brasil em 1999 - e ambos subseqüentemente adotaram medidas para elevar a sua resistência financeira. Eles reduziram a inflação, deixaram suas moedas flutuar, acumularam superávits externos ou pequenos déficits e, o que é mais importante, acumularam montanhas de reservas cambiais (que agora excedem tranqüilamente as suas dívidas externas de curto prazo). O bom comportamento financeiro do Brasil foi recomendado já em abril deste ano, quando o Standard & Poor´s elevou a sua nota de crédito para nível de investimento (a Coréia do Sul já obteve nível de investimento há anos).

Apesar disso, ambos estão sendo duramente castigados nos mercados financeiros. Nos dois meses passados, suas moedas perderam cerca de 25% do seu valor ante o dólar dos EUA. Seus mercados de ações declinaram bem mais (40% no Brasil e 33% na Coréia do Sul). Nada disso pode ser explicado pelos fundamentos econômicos. Os dois países experimentaram um período de crescimento robusto recentemente. O Brasil é um exportador de commodities, ao passo que a Coréia do Sul não é. A Coréia do Sul depende enormemente de exportações a países ricos, e o Brasil, bem menos.

Estes e demais países emergentes são vítimas de uma corrida racional rumo à segurança, exacerbada por um pânico irracional. As garantias públicas que os países ricos estenderam aos seus setores financeiros expuseram de forma mais clara a linha crítica demarcatória existente entre ativos "seguros" e "arriscados", sendo que os mercados emergentes estão claramente nesta última categoria. Os fundamentos econômicos ficaram pelo caminho.

Para piorar as coisas, os mercados emergentes são privados da única ferramenta que os países adiantados empregaram para estancar os seus próprios pânicos econômicos: recursos fiscais internos ou liquidez interna. Os mercados emergentes necessitam de moeda estrangeira e, portanto, de apoio externo.

O que precisa ser feito está claro. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e os bancos centrais do G-7 precisam atuar como emprestadores globais de última instância e fornecer liquidez ampla - rapidamente e com poucas restrições - para apoiar as moedas dos mercados emergentes. A dimensão da provisão de recursos necessária provavelmente chegará a centenas de bilhões de dólares dos EUA, e superará tudo o que o FMI já tenha feito até agora. Mas não há nenhuma escassez de recursos. Se for preciso, o FMI poderá emitir direitos especiais de saques (SDRs) para gerar a liquidez global necessária.

Além disso, a China, que detém quase US$ 2 trilhões em reservas cambiais, deve ser parte desta missão de resgate. O dinamismo da economia chinesa é extremamente dependente das exportações, que poderão sofrer muito com um colapso dos países emergentes. Na verdade, a China, com sua necessidade de crescimento elevado para pagar pela paz social, pode ser o país que mais corre risco com uma grave queda na atividade econômica global.

O interesse próprio indisfarçado também deve convencer os países avançados. O colapso continuado das moedas dos mercados emergentes e suas conseqüentes pressões comerciais lhes dificultarão ainda mais a tentativa de impedir um aumento substancial nos níveis da taxa de desemprego. Na ausência de um escudo para as finanças dos países emergentes, o cenário apocalíptico de um ciclo vicioso protecionista que relembra a década de 1930 já não pode ser descartado.

Dani Rodrik, professor de Economia Política na Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade Harvard, é o primeiro ganhador do Prêmio Albert O. Hirschman do Social Science Research Council. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Aposentadoria e salário mínimo

A dissonância entre os reajustes do salário mínimo e das aposentadorias superiores ao mínimo não deixa de ser um posicionamento político: de combate à pobreza. No entanto, o problema previdenciário no Brasil é muito mais complexo do que isso e tem de ser "resolvido" com urgência.


Aposentadoria tem defasagem de 84% sobre mínimo

da Folha Online

Nos últimos 13 anos, os aposentados que recebem valores acima do salário mínimo acumularam uma defasagem de 84,14% em suas aposentadorias, informa o blog do Josias.

Entre 1995 e 2008, os 16 milhões de aposentados que recebem o equivalente a um salário mínimo tiveram reajustes de 104,20% acima da inflação. No mesmo período, os 8 milhões que recebem valores acima do mínimo tiveram reajustes menores: 20,06% além da variação inflacionária.

Os dados constam de um estudo preparado pela Comissão de Orçamento do Congresso. Nesta terça (18), o ministro José Pimentel (Previdência) vai ao Congresso para debater a recomposição das aposentadorias.

O governo defende que não tem dinheiro para a atualização dos ganhos de aposentados. Em 2008, o Tesouro estima gastar R$ 36,59 bilhões com os aposentados. Pelas contas dos técnicos do Congresso, a cifra deve chegar a R$ 104,8 bilhões se todos os benefícios forem reajustados na mesma proporção.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mapa eleitoral do Estadão.com.br

Ferramenta muito interessante para quem gosta de política. Podemos comparar os resultados das eleições municipais desde 1996 até 2008, com diversos indicadores sócio-econômicos.


Alguns dados interessantes: grande crescimento do PMDB em quase todos os cruzamentos; partidos da base governista crescem nas cidades que têm grande porcentagem de população atendida pelo Bolsa-Família (PMDB, PTB e PT); DEM cai em quase todas as situações, com exceção do orçamento administrado e do total de eleitores, claramente puxado pela eleição da cidade de São Paulo.
Vale a pena olhar.

sábado, 8 de novembro de 2008

Imagem versus Conteúdo

Um outro problema a respeito dessa quantia é: cadê os gastos com formuladores de políticas públicas? A imagem é passada a este alto custo, mas e as propostas? Estão no segundo plano, claro.

Pesquisa aponta custo de US$ 53 mi para se eleger um prefeito
Estadão on line
Associação de consultores calcula custo da campanha por voto: US$ 14 para prefeito e US$ 8 para vereador
O levantamento foi feito com dados de 80 consultores da Abcop, explica o presidente da associação Carlos Manhanelli, e considerou uma campanha "partindo do zero", ou seja, sem nenhum tipo de estrutura partidária: "Era o jeito de calcular. Os gastos vão desde a faxineira e o escritório até o estrategista. Tudo mesmo". Por isso, segundo ele, há diferença entre os valores calculados acima e a previsão de limite de gastos informada pelos candidatos ao Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) antes do início da campanha. Kassab informou limite de gastos de R$ 30 milhões e Marta, R$ 25 milhões. 
"Mas numa eleição, os prefeitos, por exemplo, já contam com uma máquina para trabalhar e esse custo é reduzido. Também têm a estrutura a partidária, o diretório do partido, os voluntários etc.", explica Manhanelli, que também dá aulas de marketing político na Universidade de Salamanca, na Espanha, e foi responsável por 13 campanhas eleitorais este ano. Ele só não conta quais. "Quem tem que brilhar é o candidato", justifica. Ainda sobre as campanhas, o consultor política explica que o Brasil exporta sua expertise na área e realiza campanhas eleitorais em países da América Latina (Argentina, Equador, Bolívia) e África (Angola e Congo). 
O marco da influência do marketing político nas campanhas é 1989, data da primeira eleição à Presidência da República após o fim do período militar, na disputa entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, diz o consultor político e professor da USP, Gaudêncio Torquato. "O marketing político usa técnicas que procuram maximizar potenciais e minimizar pontos fracos do candidato", afirma. Torquato explica que o trabalho se baseia em cinco eixos: pesquisa (quantitativa e qualitativa); construção do discurso (propostas e promessas) com base na pesquisa; plano de comunicação com uso de várias mídias; articulação com a sociedade organizada (ONGs, por exemplo); e mobilização das massas (carreatas, comícios, caminhadas etc.). 
Torquato critica o domínio dos publicitários na área, particularmente Duda Mendonça, responsável por campanhas vitoriosas como a de Lula, em 2002, e a de Paulo Maluf à Prefeitura de São Paulo, em 1992. "Inventaram que o marketing político é basicamente campanha de televisão. Começou a se dar ênfase nas campanhas televisivas. Fizeram campanhas belíssimas, porém esqueceram outro eixos de campanha publicitária", disse o professor da USP.
Há quem discorde. Para o professor da ESPM, Emmanuel Publio Dias, Duda Mendonça sabe fazer campanha "principalmente vencedora". "Quando ele pega alguém com potencial de vencer, ele faz disparar. Ele é muito popular, linguagem popular bem fácil, ele entende de televisão. Na campanha deste ano, Duda Mendonça colecionou maus momentos ao ter sua equipe reduzida na campanha de Marcelo Crivella (PRB) por falta de dinheiro. Mas também somou vitórias à sua trajetória, como os petistas Luizianne Lins, em Fortaleza, e João da Costa, no Recife.Andréia Sadi e Gisele Silva, do estadao.com.br
SÃO PAULO - O custo médio de uma campanha para prefeito nas últimas eleições foi de US$ 14 por voto e para vereador, US$ 8 por voto, segundo levantamento da Associação Brasileira de Consultores Políticos (Abcop), que reúne profissionais que trabalham em campanhas eleitorais. Considerando esses valores, o custo da campanha do prefeito reeleito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), seria de US$ 53 milhões (R$ 116,6 milhões), multiplicando-se os US$ 14 pelos 3.790.558 votos que ele obteve no segundo turno. Ainda seguindo esse cálculo, Marta Suplicy, candidata do PT, teria gasto US$ 34,3 milhões (R$ 75,5 milhões, equivalente a 2.452.527 votos). São Paulo é o maior colégio eleitoral do País, com 8,2 milhões de eleitores e, portanto, é onde se concentrariam os maiores gastos de campanha.

G-20 e as propostas de combate à crise

Talvez estejamos vendo o aprofundamento do poder do G-20, e conseqüentemente do Brasil, na política econômica mundial.  

Lula vai atacar a ''economia irreal'' e pedir limites

Discurso do presidente na abertura do encontro, hoje, deverá ter um recado duro aos "causadores da crise"


Estadão on line

Decidido a dar um duro recado aos países ricos, onde começou a crise, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve defender hoje que o sistema financeiro fique mais fortemente vinculado à economia real e não mais a papéis especulativos, que refletem uma riqueza muitas vezes inexistente. Esse deverá ser o foco do discurso de hoje, na abertura da reunião do G-20 Financeiro, que reúne presidentes de bancos centrais (BCs) e ministros de finanças dos países desenvolvidos e dos principais emergentes.

A grande quantidade de papéis lastreados em hipotecas imobiliárias sem garantias (subprime) são um exemplo do que o governo brasileiro considera um produto financeiro que não reflete a economia real. Avalia-se que títulos dessa qualidade deixaram a economia suscetível à crise financeira que tomou conta do mundo e ameaça transformar-se numa forte retração econômica.

O governo brasileiro tem se queixado do fato de os países emergentes estarem pagando caro por uma crise que não causaram. Na visão do Planalto, é necessária alguma limitação ao sistema financeiro e esse limite teria de ser dado pelos estados, de forma coordenada.

Em seu discurso, que ainda estava recebendo os últimos retoques ontem à noite, Lula deverá fazer referência ao novo governo norte-americano. Entre os assessores palacianos, foi bem-recebida a declaração do presidente eleito, Barack Obama, de que sua prioridade zero será o combate à crise. Isso foi visto como sinal de boa disposição para discutir as mudanças nos organismos internacionais que vêm sendo pleiteadas pelo Brasil. "Sem o apoio dos Estados Unidos, não tem possibilidade de reforma", reconhece um auxiliar do presidente.

Lula deverá defender, em seu discurso, que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial sejam redesenhados de forma a dar mais poder aos países emergentes. É bandeira antiga do governo brasileiro mudar a relação de poder nesses organismos, que refletem o status econômico do mundo pós-guerra e não dá voz a países que ganharam importância desde então, como o Brasil e a Austrália, por exemplo. 

Embora sejam sócios, esses países jamais ocuparam a presidência desses organismos. Além disso, Europa e Estados Unidos têm votos suficientes para bloquear qualquer proposta que não seja de seu interesse.

A reforma dessas instituições multilaterais foi defendida por Lula também num artigo escrito para a revista G-20, que circulou ontem. "O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial têm de se adaptar às novas realidades ou perder a relevância", escreveu o presidente. 

Ele acrescenta que os desafios que se colocam no mundo atual, como a crise, o aquecimento global, a segurança energética e o combate à pobreza, não podem mais ser enfrentados sem uma participação ativa dos países emergentes.

Nesse quadro, Lula defendeu o fortalecimento do G-20, que foi criado em 1999 justamente a partir da constatação que países importantes na economia mundial não tinham um foro internacional para coordenar políticas com os países desenvolvidos.

"A criação e o fortalecimento de fóruns mais diversos e representativos, como o G-20, constituem um passo essencial na formação de um sistema internacional de tomada de decisões que responda às necessidades e expectativas dos dias atuais."

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Fusão Itaú-Unibanco

Mais concentrado ou mais fortalecido? Qual face do mercado pesará mais nos resultados efetivos?

Mantega diz que fusão do Itaú com Unibanco fortalece sistema financeiro

03/11/2008 - 13h05
EDUARDO CUCOLOda Folha Online, em Brasília

A fusão dos bancos Itaú e Unibanco, anunciada hoje, deve fortalecer o sistema financeiro nacional e evitar problemas na liberação de crédito no país, segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
Após participar de reunião do Palácio do Planalto, o ministro comentou o negócio que formará o maior banco do país e o maior grupo financeiro do Hemisfério Sul.
"É importante, pois solidifica os dois bancos. É normal que em um momento de turbulência, de problemas internacionais do setor financeiro, você tenha um movimento de fusões. São dois bancos tradicionais, dois bancos sólidos, que têm uma atuação importante para a atividade econômica", afirmou Mantega.
O ministro destacou também a questão que mais preocupa hoje o governo, que é a falta de crédito no sistema financeiro.
"Eu acredito que é um fato importante que, nesse momento, eles se unam de modo a continuar cumprindo o papel de liberar crédito", afirmou.
Mantega reconheceu que a fusão vai aumentar a concentração do sistema financeiro nacional, mas afirmou que esse fator é positivo na medida em que fortalece as instituições que atuam no país.
"Vai mudar um pouco, mas não muito, porque ele já é um setor concentrado. O importante é que essa concentração vem no sentido de fortalecer o sistema financeiro', afirmou. 'Elas vão ter um poderio financeiro maior.'
Um dia depois do outro
O ministro também comentou o fato de o Banco do Brasil, que comemora em 2008 os seus 200 anos, ter perdido o posto de maior instituição do país.
"Momentaneamente ele perde a liderança, mas a vida é assim, nada como um dia depois do outro. Ele terá chance também de correr atrás e se refazer", afirmou o ministro. "Se ele é o primeiro ou segundo ou terceiro não é tão relevante, mas garanto que ele vai continuar crescendo."
No final do mês passado, o governo editou uma medida provisória que permite a compra de bancos privados pelo BB e pela Caixa. A medida ainda está em análise no Congresso. Até hoje, esse tipo de negócio era proibido.

sábado, 1 de novembro de 2008

Prevendo o imprevisível

Interessantes apontamentos de Jairo Nicolau. Segundo pesquisas feitas, há pouca relação, ou melhor, há pouco respaldo (até hoje) em "previsões" para as eleições subseqüentes para presidente e governador em relação aos resultados das eleições majoritárias municipais. Ao contrário, há relação próxima entre os resultados das Câmaras municipais com os das Assembléias Legislativas e do Câmara dos Deputados.

Ao fim das eleições

28/10/08

Jairo Nicolau

Dia seguinte à eleição municipal é quase lei: abra um jornal e você encontrará um analista comentado como a disputa ajudou a montar o quebra-cabeça (ou jogo de xadrez, a metáfora varia) das próximas eleições gerais. Percorra o jornal mais um pouco e você vai se deparar com um inevitável quadro com a lista de vencedores e perdedores do pleito. O espírito é o mesmo: apontar para a disputa de 2010.

Desde 1996 aprendi a olhar esses prognósticos com um certo cuidado. Naquele ano, os então prefeitos do Rio de Janeiro, Cesar Maia, e de São Paulo, Paulo Maluf,  encabeçavam a lista de vitoriosos. Eles tinham eleito dois nomes absolutamente desconhecidos (Luiz Paulo Conde e Celso Pitta) como seus sucessores. Os prognósticos apontavam Maia e Maluf como nomes fortes na disputa presidencial de 1998. Mas a história não confirmou as previsões. Os prefeitos eleitos brigaram com os seus “padrinhos”; a emenda da reeleição aprovada em 1997 (não prevista pelos analistas de 1996) permitiu a recandidatura de Fernando Henrique Cardoso em 1998; Cesar Maia e Paulo Maluf acabaram concorrendo para governador em seus estados, sendo derrotados respectivamente por Anthony Garotinho e Mário Covas.

Dois anos representam um tempo muito longo na instável política partidária brasileira. E fatores externos freqüentemente afetam as previsões feitas na segunda-feira pós-eleitoral. Alguns desses podem ser imaginados (uma reforma política; os efeitos da crise econômica no próximo ano; os inevitáveis conflitos intra-partidários). Mas outros fatores são impossíveis de prever.

Correlação de Pearson

Para avaliar se a votação dos partidos na disputa municipal estava associada aos resultados de dois anos depois, fiz um teste estatístico (conhecido como correlação de Pearson), com dados de eleições anteriores. Para minha surpresa, descobri que a votação de Lula em 2006 tem correlação zero com a votação que o PT obteve para prefeito dois anos antes. A correlação dos votos do PSDB para prefeito e os votos de Alckmin em 2008 também são insignificantes. 

As únicas associações estatísticas significativas foram encontradas nas eleições proporcionais. Existe uma correlação moderada entre os votos dos partidos para as Câmaras dos Vereadores e os votos destes para a Assembléia Legislativa e Câmara dos Deputados dois anos depois. Sabemos que os vereadores são fundamentais na rede de apoio montadas pelos candidatos a deputado federal e estadual. E os números  confirmam essa associação.

Uma observação das eleições para vereadores já oferece um primeiro indicativo da próxima Câmara dos Deputados. Se o padrão de eleições anteriores se repetir, podemos dizer que, independentemente de quem seja o próximo presidente, a câmara deve continuar tão (ou mais) fragmentada como a atual. Três partidos (PMDB, PSDB e PT) terão bancadas maiores (entre 60 e 100 deputados) e um grande número de partidos terá bancadas menores.