quarta-feira, 11 de março de 2009

De grão em grão...

O Legislativo e os demais poderes ainda precisam amuderecer muitas "coisas pequenas" para que o alicerce das grandes não desmorone. Um bom edifício não pode ser construído sobre um lamaçal. O recomeço das atividades legislativas de 2009 está evidenciando que a pressão por mais transparência está tendo algum efeito. Os "contra-transparência" ainda são maioria no Congresso, mas quem sabe em um futuro de médio prazo não serão atropelados por um rebanho de ovelhas brancas.

Sarney determina que seus funcionários devolvam pagamento de horas extras durante recesso

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), determinou nesta quarta-feira que os servidores do seu gabinete que receberam horas extras durante o mês de recesso parlamentar do Congresso devolvam os recursos à Casa Legislativa. Sarney disse que a iniciativa deveria ser seguida por outros servidores que também receberam horas extras no mês de recesso legislativo.
"Mandei que fosse estornado da folha de pagamento o que os funcionários do meu gabinete receberam. Nós devemos tomar medidas que sejam efetivas e até mesmo radicais. Não quero dar conselho a ninguém, mas acho que [a devolução dos recursos] seria a melhor maneira de erguer a imagem do Senado", afirmou.
Apesar de reconhecer que a decisão de estornar o pagamento dos servidores deve ser tomada individualmente pelos senadores, Sarney disse que a medida seria uma "boa solução para todos nós".
O senador disse ser favorável ao pagamento de horas extras para os servidores que efetivamente estenderem suas atividades na Casa, mas criticou a banalização do pagamento. "A hora extra não é errada, há funcionários que trabalham até oito horas, dez da noite. O que é errado é receber hora extra sem trabalhar", afirmou.
Como solução para coibir pagamentos irregulares, Sarney disse que os chefes de gabinete dos 81 senadores deveriam fixar uma lista dos funcionários que recebem horas extras de acordo com a dinâmica do trabalho que executam. "Eu conversei com o primeiro-secretário do Senado, isso é um absurdo. Não pode ocorrer em nossa gestão. Espero que isso não seja um foco para a imagem ruim da Casa", afirmou.
Reportagem da Folha informa que o Senado pagou R$ 6,2 milhões em horas extras para 3.883 funcionários em janeiro, mês em que não houve sessões, reuniões e nenhuma atividade parlamentar na Casa. A autorização do pagamento foi feita pelo senador Efraim Morais (DEM-PB) três dias antes de ele deixar o comando da primeira-secretaria, órgão da Mesa Diretora responsável pela gestão administrativa.
Além da hora extra, a direção da Casa concedeu reajuste de 111% no benefício. O teto subiu de R$ 1.250 para R$ 2.641,93.

GABRIELA GUERREIRO da Folha Online, em Brasília

terça-feira, 10 de março de 2009

Custo do Legislativo

Em 2009, cada senador custará cerca de R$ 34 milhões, quase seis vezes mais do que um deputado federal, segundo o levantamento da ONG Transparência Brasil. Entre as assembleias, o deputado mais caro é do Distrito Federal. O mineiro vem em seguida, com R$ 10 milhões, e o catarinense, sob a cifra de R$ 7 milhões.
Gráficos e maiores informações:

sábado, 7 de março de 2009

2010 no estado de São Paulo

Pallocci, Marta, Mercadante...
O sonho do PT de governar o estado de São Paulo irá provocar grandes disputas internas antes das eleições 2010.
Enquanto isso, no PSDB é quase certo que Alckmin será o candidato, já que ele conta com grande eleitorado no interior do estado.

Lula avisa PT que Palocci é seu candidato ao governo paulista

Presidente já discute com aliados, certo de que ex-ministro não será punido pelo STF por escândalo do caseiro

A bordo do Aerolula, no voo que o levou de Campinas a Brasília na última segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou um recado explícito para uma plateia de petistas e assessores palacianos sobre o nome da sua preferência para disputar o governo de São Paulo, em 2010: é o do deputado federal e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci (PT-SP).


Certo de que Palocci não será responsabilizado no Supremo Tribunal Federal (STF) pela violação direta do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, Lula já discute com aliados a candidatura do deputado ao governo paulista.


O presidente da República tem tratado do assunto com regularidade. No voo para Campinas, ele reiterou a sua posição em favor de Palocci numa conversa em que o interlocutor direto era o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) - mas o diálogo foi mantido diante de vários ministros e assessores especiais.


TRÂNSITO

Lula disse ao senador Mercadante, outro potencial candidato ao governo paulista pelo PT, que Palocci é a pessoa que reúne as principais credenciais para tentar suceder ao governador José Serra (PSDB). Na opinião do presidente, Palocci é conciliador, consegue dialogar com a classe média, tem um bom trânsito com o empresariado paulista e sabe como abordar o povo. A outros interlocutores, Lula também costuma lembrar que o ex-ministro da Fazenda já demonstrou sua competência e lealdade.


Mercadante ponderou, no Airbus da Presidência, que, mesmo absolvido pelo STF, Palocci poderá enfrentar, numa campanha eleitoral muito disputada, a ressurreição do caso Francenildo e os processos que investigaram suas gestões na Prefeitura de Ribeirão Preto (1993-1996 e 2001-2002) - compras supostamente superfaturadas e suposto pagamento de propina nos contratos do serviço de limpeza urbana.


PESQUISA

Lula ouviu atento, mas disse que Palocci tem jogo de cintura e saberá sair das dificuldades. Segundo relatos repassados ao Estado, o presidente avalia que esse passado não é motivo para Palocci se intimidar. E, em frase emblemática, sentenciou: "Fosse assim, durante as denúncias do mensalão, eu teria ficado trancado no Palácio da Alvorada".


Segundo informações obtidas pelo Estado, pelo menos um instituto de pesquisa está preparando uma grande sondagem de opinião pública, em nível nacional, para medir a receptividade do nome de Palocci entre o eleitorado.


Publicamente, o presidente Lula evita tratar do assunto para não atrapalhar o julgamento do processo de Palocci, ou dar a impressão de que está pressionando o Supremo na sua decisão. Mas, reiteradamente, fala sobre as chances de Palocci assumir o cargo sucedendo a Serra.

Procurado, o senador Mercadante disse que não comentaria nenhum tipo de conversa mantida com o presidente da República. Negou até mesmo que tivesse tratado de candidatura Palocci com Lula.

No momento, Palocci é apontado como o único capaz de unificar o partido no Estado, além de contar com o apoio da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, candidata à sucessão de Lula.

Há outros nomes no partido, como o do ministro da Educação, Fernando Haddad, mas eles só serão avaliados se o Supremo aceitar a denúncia do Ministério Público contra o ex-ministro.

ANTECEDENTES

A trajetória política de Palocci sofreu um revés em 2006, quando estourou o escândalo do caseiro Francenildo, revelado pelo Estado. De acordo com Francenildo, Palocci era um assíduo frequentador da chamada mansão da "República de Ribeirão Preto", em Brasília. No local, pessoas ligadas ao então ministro e empresários de Ribeirão Preto beneficiados por contratos superfaturados com a cidade paulista, onde Palocci fora prefeito, fariam partilha de dinheiro.

O escândalo custou a demissão de Palocci em março de 2006, já que, depois da denúncia, a conta bancária do caseiro na Caixa Econômica Federal foi violada por órgãos do governo. A operação tinha como objetivo apurar a suspeita de que o caseiro fizera a denúncia a soldo da oposição, o que não ocorreu.

Tânia Monteiro, BRASÍLIA, do Estado de São Paulo, 07/03/09.

O burocrata que queria ser Deus

O grande problema do burocrata acontece quando ele encanta-se pelo poder e quer ser governante em nome do conhecimento das leis, enxergando-se acima dos demais.

A interpretação burocrática da “lei de Deus”

O arcebispo de Recife e Olinda, dom José Cardoso Sobrinho, anunciou há alguns dias a excomunhão dos médicos que fizeram o aborto dos gêmeos que esperava uma menina de nove anos, estuprada pelo padrasto em Pernambuco. Pelo direito canônico, a excomunhão em caso de aborto é automática, porque a vítima do atentado à vida é particularmente indefesa. Pelo direito penal, por outro lado, o aborto é permitido em caso de estupro ou se houver risco de morte para a mãe. Disse d. José: “A lei de Deus está acima de qualquer lei humana”.

Concedamos, por alguns momentos, que a “lei de Deus” esteja realmente acima da lei dos homens. Ainda assim, quem interpreta a lei não é Deus em pessoa, e sim os próprios homens, razão pela qual o fundamentalismo de d. José não tem cabimento. O caso da menina estuprada é tão cristalino em favor do aborto que somente um burocrata religioso poderia invocar a "lei de Deus” para punir os médicos e a mãe.

D. José poderia ter tido a sabedoria de Abraão, que corajosamente negociou com Deus na célebre passagem da destruição de Sodoma e Gomorra. O diálogo está no Gênesis, capítulos 18 e 19:

23 E chegou-se Abraão, dizendo: Destruirás também o justo com o ímpio?

24 Se porventura houver cinqüenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinqüenta justos que estão dentro dela?

25 Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?

26 Então disse o SENHOR: Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles.

27 E respondeu Abraão dizendo: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza.

28 Se porventura de cinqüenta justos faltarem cinco, destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco.

29 E continuou ainda a falar-lhe, e disse: Se porventura se acharem ali quarenta? E disse: Não o farei por amor dos quarenta.

30 Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, se eu ainda falar: Se porventura se acharem ali trinta? E disse: Não o farei se achar ali trinta.

31 E disse: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor: Se porventura se acharem ali vinte? E disse: Não a destruirei por amor dos vinte.

32 Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei por amor dos dez.

Ou seja, em sua oração, Abraão apostou no senso de justiça de Deus, apesar da fúria contra as pecadoras Sodoma e Gomorra. O patriarca das religiões monoteístas sabia que Deus pouparia alguns pecadores, se isso fosse salvar os justos. Esse é o amor que a religião deveria transmitir.

Não é esta, porém, a lição de d. José neste triste episódio. Se a “lei de Deus” fosse seguida como defende o arcebispo, a menina estuprada, além de todo o drama de ter sido violentada e de ter engravidado com apenas nove anos de idade, correria o risco de morrer. Para d. José, isso não importa. O que importa é que todos os pecadores devem pagar, mesmo que junto com eles pereçam os justos e os inocentes.

por Marcos Guterman, do Estado de São Paulo, 06/03/09.

terça-feira, 3 de março de 2009

As verdades do PMDB

A verdade nem sempre é bem vinda... Porém as críticas deveriam servir para repensar e não para calar.

Renan destitui Jarbas da CCJ do Senado após críticas ao PMDB

Depois de fazer duras críticas ao PMDB, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) foi destituído da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado pelo líder do partido na Casa, senador Renan Calheiros (PMDB-AL).

A substituição de Jarbas pelo senador Francisco Dornelles (PP-RJ), que vai ocupar sua vaga na CCJ, é uma retaliação da legenda às críticas de Jarbas ao PMDB feitas à revista "Veja". O senador chegou a afirmar que o PMDB é um "partido sem bandeiras, sem propostas nem norte" e a maioria dos seus integrantes "quer mesmo é a corrupção".

Oficialmente, Renan sustenta que Jarbas será retirado na comissão porque não encaminhou ao partido o pedido para integrar a CCJ --ao contrário do senador do PP. Renan estaria priorizando os parlamentares que solicitaram à liderança vagas nas comissões permanentes da Casa.

Nos bastidores, porém, Renan admite a interlocutores que não vai manter na CCJ um senador que votará contra os interesses do partido na comissão. Renan considera Jarbas "desagregador" dentro do partido pelas suas posições mais afinadas com as legendas de oposição, como o DEM e o PSDB.

No final de 2007, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) chegou a ser destituído da CCJ depois que anunciou seu voto contrário à manutenção da hoje extinta CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira).

Na época, o então líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO), também ameaçou tirar Jarbas da comissão --mas voltou atrás depois da repercussão negativa do caso.

Discurso

Além de criticar o PMDB em entrevista à revista "Veja", na semana passada, Jarbas promete ocupar hoje a tribuna do Senado para fazer um discurso contrário à corrupção.

O senador disse que não vai citar nomes nem mencionar casos específicos apontados como exemplos de corrupção e nomeações indevidas pelo PMDB. O objetivo do parlamentar, segundo ele, é advertir a legenda sobre suas posições políticas.

"É preciso fazer uma reforma política urgente para tentar resolver tudo", disse ele. "Se a reforma for fatiada não resolve. É necessário definir critérios para fidelidade partidária, sem janela, e cláusula partidária."

Jarbas também prepara um projeto de lei que impede que partidos políticos indiquem nomes para o cargo de diretor financeiro de estatais. O peemedebista disse que sua proposta inclui ainda a necessidade de que o cargo seja ocupado por funcionários de carreira que serão submetidos antes de assumirem as funções à sabatina no Senado.

GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília

Justiça tarda, mas...

Interessante o comentário do editorial do Jornal da Gazeta ontem a respeito dos processos que correm na Justiça eleitoral contra 8 governadores: "Neste caso, a afirmação de que a Justiça tarda mas não falha é equivocada, já que aqui a Justiça falha porque tarda".
Pois é, punir um crime eleitoral depois de 2 anos de mandato é sem dúvida injusto para quem assume, para quem estava no cargo (que não deveria estar) e, claro, para a sociedade.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Revisionismo histórico absurdo

Concordo com o abaixo-assinado, reproduzido a seguir, escrito por alguns intelectuais como forma de repúdio ao editorial da Folha de São Paulo de 17/02/09.

“Repúdio e solidariedade”

Ante a viva lembrança da dura e permanente violência desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repúdio à arbitrária e inverídica ‘revisão histórica’ contida no editorial da Folha de S. Paulo do dia 17 de fevereiro último. Ao denominar ‘ditabranda’ o regime político vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direção editorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país. Perseguições, prisões iníquas, torturas, assassinatos, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no período mais longo e sombrio da história política brasileira. O estelionato semântico manifesto pelo neologismo ‘ditabranda’ é, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pós-1964.

Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a ‘Nota da redação’, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta às cartas enviadas à seção ‘Painel do Leitor’ pelos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fábio Konder Comparato. Sem razões ou argumentos, a Folha de S. Pauloperpetrou ataques ignominiosos, arbitrários e irresponsáveis à atuação desses dois combativos acadêmicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante às insólitas críticas pessoais e políticas contidas na infamante nota da direção editorial do jornal.

Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro.”

O castelo, os príncipes e o rei nu

Após ter tirado "férias" do blog para me dedicar ao término da dissertação de mestrado, retorno com mais um belo texto de Marco Aurélio Nogueira, sempre sagaz nas análises políticas.



Dizem que no Brasil tudo começa depois do carnaval. A convicção é em muitos aspectos verdadeira, mas não se aplica ao ano político, que costuma dar o ar da graça bem antes disso, se é que calendários políticos conheçam férias e interrupções.

2009 começou com a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado e, quase ao mesmo tempo, com a descoberta do castelo construído pelo deputado Edmar Moreira. Nada deveria chamar muito a atenção, não estivesse o deputado ocupando a segunda vice-presidência da Câmara (cargo que incluía a função de corregedor) e não tivesse “esquecido” de declarar o bem, avaliado em mais ou menos 50 milhões de reais. Com o agravante, como logo se soube, de que o castelo havia sido planejado para servir de cassino, num país em o jogo é ilegal. A cereja do bolo coube ao STF, que revelou a existência de um inquérito para apurar a apropriação indébita, pelo deputado, de contribuições ao INSS. Os desdobramentos do caso são conhecidos, não há necessidade de voltar a eles.

Também seria normal a recondução do deputado Michel Temer e do senador José Sarney à direção do Congresso Nacional, não fossem os parlamentares vinculados ao mesmo partido e não fosse esse partido um operador político inteiramente dedicado a seus próprios interesses, sem idéias consistentes ou laços substantivos com qualquer força viva da nação. Partido que inscreveu seu nome na história por ter conduzido, com realismo e inteligência, a luta pela redemocratização do país, hoje o PMDB é uma sombra de seu passado, ainda que continue ativíssimo. Faltam-lhe clareza programática e projeto nacional, sobram-lhe vínculos regionais e apetite por cargos. Passou a expressar o “atraso” político brasileiro, mas, curiosamente, ajuda a que se afirme “a tradição do público na sociedade”, como observou o cientista político Luiz Werneck Vianna (Estado, 15/2/2009). Faz isso, porém, por via eminentemente fisiológica, acabando por transferir ao sistema uma pesada carga de fatores degenerativos. Para ser contido, precisa ser incorporado ao jogo político, mas ao sê-lo rebaixa a qualidade do jogo. Tê-lo na condução do Congresso funciona assim de modo paradoxal: amarra o partido à democracia e à institucionalidade política, ao mesmo tempo que o reforça como estrutura predatória.

Também anterior ao carnaval foi a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos, que não poupou palavras para detonar seu partido, que estaria hoje definido por uma estrutura “coronelística” dedicada a explorar o governo e corroída pela negociata política. O tom foi de desgosto e decepção, mas o discurso foi calculado. Diga-me com quem andas e direi quem és, pareceu ser o recado ao Planalto, à direção do PMDB e a todos os que flertam com o partido. Política pura, com muita dissimulação, drama e jogos de cena. O estrondo só não foi maior porque o PMDB engoliu em seco, fez-se de morto e esfriou o fato.

O período foi pródigo na reiteração de duas tendências da política brasileira recente. Lula deu prosseguimento ampliado ao estilo que lhe têm concedido altos índices de aprovação popular, que atingiram agora impressionantes 84%. O Encontro Nacional de Novos Prefeitos por ele patrocinado foi uma festa política, mas não um desfile carnavalesco. Serviu de palco para a campanha presidencial de 2010, que, a esta altura, já se tornou fato consumado. Mas também conteve um elemento de vida institucional e governo: nas palavras do cientista político Fábio Wanderley Reis (Estado, Aliás, 15/2/1009), “a aproximação do governo federal com o municipal cria uma estrutura de Estado mais equilibrada” e reproduz a forma brasileira de fazer política.

A oposição não perdoou o que considerou uma antecipação da campanha presidencial. Foi, no entanto, bisonha e ineficiente na operação, reiterando a desgraça maior de sua fase atual. Exigir que um governante deixe de fazer política e de buscar extrair vantagens eleitorais de seus atos é tão sem sentido quanto achar que uma oposição de verdade deva atuar em tempo integral para demolir a situação. A denúncia foi somente uma demonstração adicional de medo e preocupação com os movimentos de Lula, quem sabe um reflexo da necessidade que têm os oposicionistas de ganhar tempo para arrumar a própria casa. Além do mais, veio embrulhada em paradoxos e contradições, como bem lembrou o professor Fábio W. Reis: ganhou luz pela boca do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no mesmo momento em que convocava o PSDB para entrar firme na disputa.

Juntando-se os fios, o período pré-carnavalesco serviu de espelho para que mirássemos a real situação da política nacional. Refletiram-se nele diversos traços da nossa dificuldade de ingressar em um ciclo virtuoso de vida democrática, reformismo e reorganização social. A persistência do flerte que o Congresso mantém com a desmoralização pública de sua imagem e de suas funções reflete um processo impulsionado pelo esforço compulsivo de políticos e partidos para maximizar interesses de curto prazo. A popularização banalizada da Presidência ganha embalo na figura carismática de Lula. O não-aparecimento de lideranças de novo tipo expressa a falta de uma oposição democrática suficientemente lúcida, unida e corajosa para abrir mão de ganhos imediatos e se apresentar como opção para a sociedade.

O ano começou dando transparência a uma situação cortada por dilemas, paradoxos e interrogações, em que não há nenhum príncipe (o estadista) ao estilo de Maquiavel e desapareceram os príncipes modernos de que falava Antonio Gramsci, os partidos políticos, dedicados a organizar idéias e interesses em torno de um projeto de sociedade.

Nunca o rei esteve tão nu.

(Publicado em O Estado de S. Paulo, 28/2/2009, p. A2).

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Novas formalidades

É interessante notar como os estudos sobre novas formas de socialização começam a ter capilaridade. Além do sucesso de vendas de livros de autores como Zigmunt Bauman,  já é possível encontrar artigos sobre o tema na imprensa escrita. Neste blog já foram postados vários artigos do professor Marco Aurélio Nogueira, que sem dúvida é um dos estudiosos mais notáveis do tema da hipermodernidade (tratando fortemente de sua relação com a política) e escreve regularmente no jornal "O Estado de São Paulo". Ontem, dessa vez na "Folha de São Paulo", o professor Marcos Nobre abordou o tema dos novos padrões de socialização que vêm se construindo em nossa sociedade marcada pela tecnologia e pela velocidade. 

Abaixo, reproduzo o artigo.


Folha de São Paulo 13/01/2009

Novas formalidades

Marcos Nobre

"É COMUM ouvir que celulares são instrumentos da nova barbárie. Que expõem a vida privada das pessoas em público, que incomodam quem está em volta, que ninguém mais respeita ninguém e por aí vai.

Com internet e e-mail, a mesma coisa. Pessoas escrevem o que lhes passa pela cabeça, querem resposta para ontem, ou, ao contrário, demoram demais para responder.

No fundo, o que está em causa são as novas regras do contato social. A impressão que dá é que muita gente gostaria de voltar a velhas formas de sociabilidade. Como a da falecida formalidade da carta postal, que permitia um distanciamento, uma proteção tanto para remetente como para destinatário.

Esse saudosismo supõe que o contato humano padrão ainda seja o do encontro face a face, quando ele se tornou apenas um entre vários tipos de contato possíveis. Já não tem primazia. E, sobretudo, deixou de ter a importância substancial que já teve, como o lugar em que duas almas e dois corpos verdadeiramente se mostram e se encontram. Interromper uma conversa para atender ao celular mostra isso muito claramente.

Isso é rude e sem educação? Do ponto de vista das velhas formalidades, sim. Mas há também muitas novas formalidades sendo pouco a pouco estabelecidas. E que também servem de proteção e refúgio para o indivíduo, que passa a ter muito mais liberdade para escolher que tipo de contato quer estabelecer e em que momento.

Claro que há problemas graves por resolver. Colocar no YouTube montagens de vídeos enganosas e difamatórias, fazer perfis falsos no Facebook ou criar comunidades caluniosas no Orkut não são certamente problemas menores. Mas há outros que são mesmo estruturais.

A cultura virtual acirrou um elemento que já vem de longe, pelo menos desde a década de 1960: o da necessidade de expressar um ‘eu’ verdadeiro e autêntico. Ainda bem que muitas pessoas no fundo não se convencem de que suas expressões individuais sejam assim tão sensacionais como nos filmes e na propaganda. Só que é difícil lidar com a frustração que isso traz. Porque o padrão de sucesso colocado é inatingível para a maioria. E também porque essas novas formalidades exigem uma reciprocidade militante.

Basta ver a solidão que esses contatos imediatos de segundo grau prometem espantar. Dão a ilusão de uma conexão permanente a uma imensa rede de pessoas e de possibilidades de contato. E essa ilusão muitas vezes vicia. Exige uma dedicação constante, quase profissional. Algo como trabalhar o tempo todo. E aí a nova formalidade já não protege mais ninguém."

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Morre Samuel Huntington


Abaixo, um artigo da "Economist" sobre a morte de Samuel Huntington, polêmico cientista político autor de "O choque de civilizações".

Huntington's clash

Dec 30th 2008 From The Economist print edition

One of America’s great public intellectuals died on Christmas Eve

IN THE early 1990s America’s opinion-makers competed to outdo each other in triumphalism. Economists argued that the “Washington consensus” would spread peace and prosperity around the world. Politicians debated whether the “peace dividend” should be used to create universal health care or be allowed to fructify in the pockets of the people or quite possibly both. Francis Fukuyama took the optimists’ garland by declaring, in 1992, “the end of history” and the universal triumph of Western liberalism.

 

Samuel Huntington thought that all this was bunk. In “The Clash of Civilisations?” he presented a darker view. He argued that the old ideological divisions of the Cold War would be replaced not by universal harmony but by even older cultural divisions. The world was deeply divided between different civilisations. And far from being drawn together by globalisation, these different cultures were being drawn into conflict.

 

Huntington added another barb to his argument by suggesting that Western civilisation was in relative decline: the American power-mongers who thought that they were the architects of a new world order were more likely to find themselves the victims of cultural forces that they did not even know existed. The future was being forged in the mosques of Tehran and the planning commissions of Beijing rather than the cafés of Harvard Square. His original 1993 article, in Foreign Affairs, was translated into 26 languages and expanded into a best-selling book.

 

The “Clash of Civilisations?” was only the most famous of numerous exercises in goring sacred cows. In “The Third Wave: Democratisation in the Late 20th Century” (1991), he argued that democratisation might have more to do with the Second Vatican Council, which had unleashed a wave of democratisation across the Catholic world, than with the spread of free-markets. In “Who Are We? The Challenges to America’s National Identity” (2004) he challenged the reigning orthodoxy of multiculturalism, pointing out that American civilisation is the product of Anglo-Saxon Protestant culture, and warning that the huge influx of Latinos threatened to unmoor it from its roots.

 

Huntington’s last book earned him a reputation as a crusty old reactionary. He certainly became a hate figure to the left and a hero to many conservatives. But his politics were altogether more complicated. He was a lifelong Democrat, a representative of that dying breed, the hard-headed cold war liberal. He wrote speeches for Adlai Stevenson and acted as a foreign-policy adviser to Hubert Humphrey. He briefly served in the Johnson and Carter administrations (he was a particularly close friend of Zbigniew Brzezinski, one of Barack Obama’s early backers). He was a fierce opponent of the neoconservatives who thought they could transplant American values into Mesopotamia.

 

But he believed that it was vital to mix liberal idealism with a pessimism rooted in a conservative reading of history. He rejected the economic reductionism that drove the Washington consensus, and insisted instead on seeing people as products of culture rather than as profit-and-loss calculating machines. He also rejected the beguiling idea (some say it has beguiled The Economist) that all good things tend to go together—that free markets go hand in hand with pluralism, democracy and the American way. He felt that America was a living paradox: America’s culture turned it into a universal civilisation but those values were in fact rooted in a unique set of circumstances.

 

For all his long career and prodigious energy—Huntington was on the Harvard faculty for 54 years and wrote 17 books on a wide variety of subjects—he will always be associated with the phrase “the clash of civilisations”. How well does his argument hold up 15 years after he first penned it?

 

Both well and badly. Huntington came as close as anybody to predicting September 11th and the “war on terror” with his strictures about Islam’s “bloody borders”. He also came as close as anybody to predicting America’s agonies in Iraq by pointing out that democracy is the product of very specific cultural processes. His argument that modernisation does not necessarily entail Westernisation also looks prescient: why should the Chinese embrace the American economic model when it seems to produce such economic havoc? And why should authoritarian regimes in the Middle East embrace democratisation when it might mean handing power to Islamists? The master emerges better than his pupil, Mr Fukuyama.

Right up to a point

But the corrective itself has needed correcting. Huntington defended his taste for the broadest of brushes on the grounds that, without one, you are left with what William James called “a bloomin’ buzzin’ confusion”. But his pronouncements often distorted reality rather than imposed order on it. He skated over the fact that many of the nastiest clashes take place within civilisations rather than between them: more Muslims die at the hands of their fellow Muslims than die at the hands of “Jews or Crusaders”; and Europeans fought the 20th century’s bloodiest conflicts among themselves. He also downplayed the extent to which the American model attracts people the world over: the Chinese business elite are much more interested in Silicon Valley than in their Confucian past. His arguments can produce policies that are just as naive as those he excoriated: policies that drive Muslims together into a single angry mass, rather than prising them apart, for example, and policies that encourage Western self-doubt just as surely as do the hand-wringing of the multiculturalists.

 

Huntington was a remarkable figure for all sorts of reasons, but most importantly because he was willing to question the excessive liberal optimism of the 1990s. Perhaps the best tribute that can be paid to him now is to question the excessive Huntingtonian pessimism that is now threatening to replace it.